Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

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II

15 de Agosto de 2008

Estava a ganhar. Ao colocar giz no taco, enquanto o seu amigo juntava as bolas no triângulo, voltou a sentir o pescoço rígido, dorido. Tentou rodar a cabeça, massajar os trapézios, mas a dor aumentava, como uma ameaça. Com força e precisão tacou a bola branca contra o triângulo e a dor aumentou. Sentiu alguns pequenos espasmos, semelhantes à dor de uma cãibra. “O que foi, Daniel?”. “Devo ter dado um mau jeito ao pescoço. Desculpa, mas ficamos por aqui, tá? Vou para casa”. “Tá bem, mas amanhã quero desforra”. Ainda conseguiu sorrir em resposta ao sorriso do Pedro, mas pagou e saiu com a pressa de quem tem um pressentimento demasiado vago para que a angústia não se faça sentir.

O caminho até casa, percorreu-o em marcha apressada. Estava um dia lindo, solar e cheio de cor. Foi quando se encontrava a uns escassos quinhentos metros de casa que aconteceu. A dor multiplicou-se por infinito e o pescoço dobrou. Uma cãibra monumental, um movimento perpétuo doloroso. O seu pescoço esticado para que a cabeça tocasse no ombro esquerdo. Assustou-se. Não havia forma de lutar contra aquilo. A dor tornava-se quase tão insuportável como o medo. Parou de andar, para não cair. Era impossível mexer o pescoço. Quando se começava a acalmar, ajustando-se à posição, vendo o mundo obliquamente, começaram os olhos a revirar-se. Aí, perdeu toda a calma que lhe restava. Os olhos doíam-lhe, ao virarem-se para cima, ou para baixo, ou para dentro, não conseguia perceber. Percebeu que seria impossível chegar até casa, naquele estado.

“Por favor, preciso da sua ajuda, estou-me a sentir mal. Moro perto daqui e”. “Leva os miúdos para dentro, vá”. O senhor de cerca de quarenta anos a que se dirigiu não olhou para ele. Ficou ali, a dois metros de distância, como se estivesse a duas galáxias de distância. “Por favor, dei um mau jeito ao pescoço, preciso apenas que me ajude a chegar a casa”. Nada. O homem olhava o vazio, piscando os olhos e engolindo em seco. “Então, não me vai ajudar? É só”. Não se preocupou em terminar a frase, aquele homem iria continuar a ignorá-lo contra tudo o que é civilização e boa vontade. Ensaiou meia dúzia de passos rápidos, para se afastar rapida e definitivamente daquele palerma. Descreveu uma elipse e quase caiu. Os olhos doíam-lhe mais ainda e os músculos do pescoço ameaçavam romper-se. Concentrou-se com determinação e desespero nos seus passos. Dava dois ou três passos tortos e a seguir corrigia a trajectória um pouco. Parava para não cair e voltava a progredir, ridiculamente lento e disfuncional.

Alguém se aproximava, naquele início de tarde de Agosto. Era o Jonas, o heroinómano residente da sua rua. “O que te aconteceu, caralho, tás bem?”. “Não”. Os últimos passos do Jonas foram um salto. “Fica quieto”. Com as duas mãos virou-lhe o pescoço, até a cabeça voltar ao sítio. O Daniel quase sorriu, mas passado dois segundos a cabeça voltou a rebelar-se, caindo, insolente e perigosa, para o ombro. O ombro esquerdo era o que impedia aquela cabeça estúpida e inútil de se separar do pescoço, caindo pelo chão e rolando pela rua até à sargeta. De novo. “Não te mexas, caralho, não te mexas”. Novo movimento com vigor e cautela. E a cabeça de novo vertical. Mas os olhos reviraram, em sintonia com a cabeça, que tombou, puxada por força invisível, testando até ao limite a flexibilidade dos músculos.

“Sabes o número dos teus pais?”. “Claro”. “Anda”. A mão tatuada do Jonas puxou com força a do Daniel. Este foi arrastado pela rua, atrás do drogado que decidiu ajudá-lo. “Anda, que eu vou arranjar dinheiro para telefonar aos teus pais”. “Eu devo ter umas moedas. “Anda, então”. Ao desceram a Rua dos Ferreiros, cruzaram-se com várias pessoas. Apareceu o irmão do Jonas. “O que aconteceu?”. “Encontrei-o assim, ia telefonar aos pais dele”. “Diz-me o número da tua mãe, Daniel.”. “Sim, olhe, o seu filho sentiu-se mal, está aqui, na Rua dos Ferreiros. É melhor virem cá”.

A partir daí tudo se misturou, fundindo-se em coisa turva e imprecisa, como se a aceleração dos acontecimentos fizesse os contornos e as cores diluirem-se em branco, em nada. Uma ambulância que chegou rápido. As dores que aumentaram e o pânico, agora sustentado pelo auxílio de profissionais, que se manifestou em esplendor e intensidade. Um primeiro hospital, ele sentado numa cadeira, já lá dentro, aos berros. A vergonha que teve de perder, ao chamar pela sua mãe. A ideia terrível de que o iriam deixar assim, de pescoço prestes a rasgar-se, até que a cabeça caísse, de esgar de sofrimento marcado no rosto, na morbidez trágica dos enforcados. Uma enfermeira que, depois de umas duas horas, ou dez minutos ou outra porção de tempo igualmente exagerada, pegou nele e o levou para uma sala, deitando-o e dizendo-lhe que lhe ia dar uma coisa para ele acalmar. “Isto é valium, e vai-te fazer relaxar, vais ver.” Resultou. Passado dois minutos todos os músculos do seu corpo começaram, muito subtilmente, a desistir de o aterrorizar. E meia-hora depois, tudo voltando, mas lentamente, ao que já tinha sido. Mudança de hospital. E ainda nova mudança, as horas sucedendo-se e a tarde chegando ao fim, levando o sol. Uma passagem pelo consultório de um ortopedista, que lhe colocou uma coleira ortopédica. Muito pior. O pescoço não desistia de lhe empurrar a cabeça contra o ombro. “Esta merda vai-se partir, tire-me isto”. “Posso garantir-lhe que essa... coisa não se parte”. Mais tarde ou mais cedo o ortopedista decidiu que aquilo era situação que não lhe dizia respeito, a si ou à sua especialidade. É no consultório de uma psiquiatra que é decidido o internamento. E que lhe é explicado que aquilo é um ataque assim-assim, nada de grave, basta uma dose de Akineton e passa. O que inspira cuidados é o que o levou a ter o ataque. “Está a ser tratado como doente bipolar?”. “Não sei o que é isso. Já fui tratado por causa da depressão, mas deixei de tomar os medicamentos”. “Pois, isso de deixar de tomar os medicamentos não foi boa ideia. Mas o importante é ter-lhe sido feito o diagnóstico, agora. Vai de férias uns diazitos, para descansar, sim?”.

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