Sábado, 24 de Novembro de 2007

O Gordo, o Infeliz e o Poeta I


- Então, não vais continuar a ler essa merda?
- O livro? – Perguntou Daniel com um sorriso sério, severo, reprovador. Se é possível dotar um sorriso de todas essas qualidades então Daniel fazia-o com a competência de uma experiente enfermeira, séria e severa, que tem de reprovar a prevaricação de um dos seus pacientes, ao apanhá-lo em flagrante.
- Grumpf!
O sorriso já não é tão sério. Tão profissional. Afável, faz uma pergunta. O Daniel, pois afável ao Vasco parece-lhe coisa própria de fava.
- Qual a página em que íamos. Seria...
- Sessenta e nove.
- Muito bem. - Dedos habituados a páginas de livros folheiam.
- Nem uma corzinha na face, um a olhar a confirmar. Estou impressionado.
Daniel levanta os olhos do livro, ainda segurando a página entretanto encontrada. – Prefere então outra página.
- Claro. Este número é bom para outras coisas. Para recomeçar uma leitura, a última página em que se ficou não é má de todo.
- Cinquenta e dois, então. Embora concorde que sessenta e nove é um bom número. Comecemos. – Aclarou a voz e já de boca aberta foi interrompido.
- Boa memória.
É um bom número para provocar tipos moderadamente moderados. Para testar o seu empertigamento. A sua serenidade construída. Continue lá o seu início.
Não evitou um pequeno suspiro. Que decorreu de ter inspirado ar para ter fôlego para ler. Assim pensou que ia ser interpretado. Vasco sorriu triunfante. Mas discreto. Não gostava de humilhar, embora fosse conflituoso e cínico. E mais que isso.

“Fosse o desespero um paliativo de raiz fincada na respiração e eu ganharia fôlego para correr atrás da minha dor. Ontem sei que plantei uma esperança impregnada com o sabor do que me usava. No fulcro do que imaginei ser o meu coração. Sempre nos habituámos a chamar coração ao coração. Era energia a energia que me consumia. Dormir sobre a corrente. Como posso eu beber a sede se esqueço a cada momento do que me esqueço? E o que é a sede? Mas é tão grande a sede... É tão grande a dor que quero curar. Há momentos em que da energia uma luz me diz que estou próximo porque não importa se sei o que é distância. Não que eu saiba sequer o que é luz. Mas há uma pessoa que dói. E já não me dói tanto a dor dela. Já posso sentir de novo a luz enquanto sangro. Houve até momentos em que não sangro. Sei que é preciso uma raiz. Porque se é a emoção a dizer-me o que É eu esqueço que não estou só a ser. Estou a sentir. Então perco o centro. E corro para a corrente. Que sou eu a consumir-me. A querer ser só sede. E dói, como dói ser só um fluxo que pensa demais quando pensar é só uma palavra ou um poente. E lágrimas correm. Ainda que escreva. Ainda que haja gramática, trevas que possa nomear. E que entre nas ou fuja das estruturas. Ainda que (...) ”


- Porque parou?
- Desculpe...
- Não me fez mal nenhum, meu rapaz. Não gosto de desculpas despropositadas. Estou só curioso. Está a esfregar os olhos. Parece cansado. Já me leu páginas a fio. Nunca me disse que não gosta do autor. Há qualquer coisa no que leu que tenha mexido consigo? Estava a sentir-se bem ainda há pouco. Passou-se um minuto e meio, dois minutos no máximo. E estava a ler lindamente, deixe-me dizer-lhe. Talvez por isso...
- Vamos continuar?
- Não acho que seja boa ideia. Ninguém me pode acusar de ser cruel.
- Eu estou bem. Podemos continuar.
Vasco mudou de feições. Tinha uma tendência para se irritar ao ser contrariado. Mas cultivava como desporto contrariar tudo o que era tendência.
- Pois eu digo que você... É para continuar? Pois a página sessenta e nove então está tão bem como você. Continue lá, meu grandessíssimo teimoso.
- Está a gozar...
- Continue, por favor – A entoação era estranhamente cordial, amável.
Os dedos encaminharam-se para aquela página.

“ (...) e o melhor será ser moderadamente moderado.”


O leitor ficou a olhar para o ar divertido e moderadamente paternal do doente acamado. As demasiadas almofadas elevavam-no dando-lhe um ar régio. Pelo menos assim brincou ele sobre si próprio, numa das primeiras conversas sobre a sua imobilidade. Vasco fez-lhe um sinal, régio, para continuar. Foi tão teatral, mas tão natural naquele contexto, que Daniel quase sorriu. Conseguiu relaxar o suficiente para encarar a restante página sem exagerada tensão.

“O assombro é inimigo da beleza. Como tocar numa anémona que se estende lânguida, ceder ao deslumbramento é afastar a lucidez. Nos momentos em que se vive inteiramente. Aí a lucidez é preciosa. Porque me liga à terra. Essa raiz não posso dispensar. A clareza. Não uma âncora que me afunde. Ou umas asas de Ícaro quando preciso de caminhar junto ao solo. Clareza. Sem que renuncie à vitalidade. Ou ao que me arrebata. Mas ser arrebatado não é necessariamente ver toda a emoção turvada por um desejo imaturo de sentir ao mesmo tempo tudo e coisa nenhuma. É a vida a chamar-me a atenção. Isto deve ser-te importante. Olha para aqui. É o meu ego que aponta, vezes demais. E o desejo de ser moderado pode tornar-se um maestro ditador. Que reprime, censura, cobre com cortinas a luz, põe lâmpadas artificiais, cria monstros mitológicos para que eu tenha medo do que é fronteira. Ser moderadamente moderado.”


- Foque por aí.
- Foque? – Daniel coçou a cabeça confuso, pousou o livro nas pernas. Recostou-se na cadeira. Suspirou com vontade. Desta vez, sim, estava a respirar longamente. Expirar. Sem se reprimir ou pensar no que o outro pensaria de si.
- Queria dizer fique. Fique por aí...
- Queria?
Primeiro terá sido Daniel a rir. Mas a gargalhada de Vasco é que despoletou tudo. Era uma gargalhada subversiva. De tom grave, não muito alta, mas rouca e arrítmica, contagiante. E começando, parecia que não ia mais ter fim. Daniel seguiu-se. A sua era mais alta, com um registo mais agudo, e entrecortada, como se tivesse consciência de si e fosse parar a qualquer momento. Mas não parou. Não parou durante muito tempo. Ficaram os dois a rir-se. A curar feridas um do outro. Riram. Muito.

2 comentários:

Anónimo disse...

Gosto tanto do teu dizer no olhar das pessoas e dos comportamentos.
E este título é absolutamente fascinante!
Um abraço
M

anarresti disse...

é o título de um conto que vou aqui publicar, capítulo a capítulo.

abraço.