terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

o ruído da ausência

não sei de ti. desapareceste por entre o ruído da cidade. não me atrevo a considerar o eco do meu desejo como um vestígio da tua passagem. e nem a assombração do teu corpo, pairando sobre os meus dias, é  um indício da tua presença. desapareceste. recordo a tua voz, o teu sorriso, a tua pressa ao sair, o teu cabelo despenteado ao chegar. os escassos segundos de uma bicicleta a afastar-se. não sei o teu nome, nem se moras perto. tenho um envelope com palavras que não sei se algum dia conhecerás.

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

corpo são é mente sã

ontem, uma pessoa amiga usou a expressão mens sana in corpore sano como resposta a algo que eu dizia sobre andar de patins. mente sã em corpo são é uma óptima síntese de uma série de coisas boas. não tenho nada contra a expressão de Juvenal. não a costumo usar muito porque a relaciono sempre com as ideias greco-romanas sobre o corpo e o desporto. eu, sinceramente, não sou greco-romano no que toca ao desporto. não nego que a minha cultura vem daí, como a de outro qualquer europeu ocidental. mas não tenho por ideal a coisa olímpica. não gosto de podiums, nem de bandeiras a subir, como em homenagem de soldado, nem dos hinos a tocar. não gosto de medalhas nem de troféus. não gosto da glória do medalhado nem dos anais a registar recordes como se fossem patamares de realizações morais - em relação aos recordes tenho o mesmo interesse que tenho por estatísticas em geral. gosto de estatísticas, porque resumem em números dados que acho interessantes. mas, de resto, não gosto dessa coisa greco-romana de homens (e eram sempre homens, não havia mulheres) a correr pela glória, para se poderem assemelhar aos heróis dos poemas épicos e aos semi-deuses que, por sua vez, eram descritos e criados à semelhança dos homens. não gosto disso nem faço disso a minha cultura. por causa da palavra glória, lembro-me do filme "Momentos de Glória", que, embora se chame no original Chariots of Fire, na versão portuguesa resume aquilo a que se resume (para alguns) o trabalho da vida de um atleta - alguns escassos momentos de glória. eu deito essa cultura para o lixo. e essa cultura tem momentos muito feios, como aconteceu com os nossos atletas olímpicos, em Pequim. porque a Naide Gomes foi trapalhona e talvez desconcentrada, a Telma não conseguiu impôr-se no dojo e um tipo disse que de manhã gosta de estar na caminha, tivemos uma nação palerma e barriguda a trazer para as olímpiadas o merdoso discurso geralmente reservado à selecção de futebol: "não se esforçam, não têm amor à camisola, não são dignos de representar portugal". merda para essa forma de ver os atletas e a cultura física. o desporto, na minha concepção e prática, não tem nada a ver com camisolas, nações e nacionalismos, glória, medalhas, hinos e outras coisas mesquinhas e inúteis da política e do ego.  e nem sequer tem a ver com os adeptos, fãs ou espectadores. perguntem a um praticante de ioga se ele sente falta de medalhas ou de momentos de glória. perguntem ao Shane Dorian, quando anda a surfar pelo mundo, se lhe faz falta uma multidão a puxar por ele. perguntem aos praticantes de Chinlone se se devia passar a competir e a premiar os melhores - no Chinlone todos praticam, ninguém compete. perguntem ao Eito Yasutoko se quando ele cria uma manobra nova o faz por amor à camisola do seu Japão. e não deixo links, porque quem realmente se interessar por desporto, vai ao google. ninguém precisa de medalhas como estímulo para subir uma montanha. ninguém precisa de fãs, quando está a praticar sexo tântrico. ninguém quer saber do podium quando faz um trilho a pé ou se dedica ao mergulho livre. o desporto, a forma física, o prazer psico-motor, o conhecimento da nossa motricidade são como tudo o que importa: não servem para chegar a uma outra coisa (medalhas, reconhecimento, etc), fazem-se porque são importantes, porque conspiram para a felicidade, porque nos atiram para o mundo com mais energia e capacidade.  
texto publicado originalmente em setembro de 2009

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

a seiva

há pessoas noutros países, noutras latitudes, noutras lonjuras, próximas de mim pelo amor que acalentamos e pelo desejo mútuo de felicidade. tornamos o mundo mais pequeno e muito maior, ao aconchegarmo-nos à ternura e à vitalidade que entre nós circula. penso no mundo assim, uma bola de água, gases, minerais e seres vivos que se ligam através de uma rede de afectos, afinidades e emoções boas. regeneramos o tecido sensível da nossa vida, ao abri-la a outras vidas, que se alimentam da nossa, que alimentam a nossa. por entre a cinza e as agressões, as sementes sobrevivem à lava, até que as raízes fazem estalar a crosta estéril e os ramos verdes avançam até ao sol. como árvores, crescemos, aparentemente imóveis e desprotegidas. as nuvens formam-se, desabam as tempestades e regressa a luz.

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

deslize

gosto de patinar no meio de muita gente. gosto de ter de variar de velocidade, de desviar-me das pessoas, rodando à esquerda ou à direita, ou mesmo girando abruptamente, sem sair do sítio, para parar. gosto de usar o travão suavemente ou a lâmina de rodas de um dos patins, para desacelerar um pouco. gosto desta locomoção em diagonais, de poder mudar a direcção no último momento, antecipando o balanço com o lado oposto do corpo ou mudando o ângulo. gosto da preocupação que alimento em deixar as pessoas confortáveis e indiferentes à minha passagem. vou apurando os sinais da minha linguagem gestual, a inclinação do corpo mostrando o lado por que vou passar, a fluidez dos movimentos, para transmitir e sentir segurança, a exagerada lentidão, na proximidade de uma criança pequena que ainda não me viu e que corre despreocupada. gosto mesmo muito de ler na multidão a forma como as pessoas se movimentam, de antecipar em grupos pequenos de pessoas onde se vão separar do corpo principal de gente que passeia, de perceber, numa hesitação de alguém que olha para o lado, uma súbita paragem e mudança para lado contrário. gosto de ver as pessoas, a sua pressa, os sorrisos com que respondem umas às outras, a sua calma de lazer familiar, os carrinhos de bebé e as crianças que já sabem andar, os solitários apressados, os fumadores caminhantes, pensativos ou nervosos,  os casais de mãos dadas ou mãos nos bolsos, os adolescentes estridentes e coesos, os homens de perna direita no muro, cotovelo sobre o joelho, a sua vozearia a ecoar o jogo de futebol da véspera, as senhoras idosas que aderiram às caminhadas, os compradores de sacos de compras inchados, os vendedores de castanhas, os peruanos a tocar flauta de pan sobre um som pré-gravado de clássicos easy-listening, os homens que vendem brinquedos eléctricos a demonstrar a autonomia de plástico, em movimentos repetitivos, de um animal robótico que dá cambalhotas e piruetas e ladra ou mia ou ruge electronicamente, os leitores de livros ou jornais nas esplanadas, os pedintes já conhecidos e os novos que procuram o seu espaço, os polícias que passam a pé ou em segways, o quasi-comboio que transporta turistas, devagar, os empregados dos cafés, com as bandejas flutuantes, desviando-se, curvando-se, aproximando-se, levantando e pousando, mais elegantes nas esplanadas que eu que rolo de patins, quase enamorado da cidade e das pessoas que a habitam.

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

solfejo

o meu amor mora longe. vive onde o tempo escorre devagar, como uma promessa ou uma suspeita. a minha voz, carregada do peso das horas silenciosas, não tem asas que a transportem. imagino que ecos ou fragmentos chegam à praia, como escolhos ou vestígios de uma tempestade que acabou. penso na letra de "por quem não esqueci" e recuso-me a cantar. "por quem já não volta" é uma sentença, um lamento resignado e hermético, que não tem cabimento na respiração do meu olhar. o horizonte é o topo de uma cortina, que me esconde os bastidores da saudade. mora longe o meu amor. onde tudo é lento e oculto, onde não se escutam os passos do desejo, na areia macia da expectativa. mora longe, perto dos fôlegos das gaivotas e da orla da espuma. o meu amor é uma canção que os lábios em ferida vão desaprendendo.

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

se o meu dia fosse perfeito

hoje ficaríamos na cama. enquanto dormisses ainda, a única escapadela rápida. um duche de água a ferver e roupa quente, para descer à pastelaria e comprar croissants ainda quentes, ou pães de leite. depois, o pequeno almoço levado ao quarto e o meu beijo a despertar-te. cereais e iogurte, leite morno e chocolate, os croissants ou pães de leite, a geleia e o doce de figo, o sumo de laranja, um diospiro, torradas integrais com mel e beijos adocicados. quando te levantasses para ir tomar banho, beijos de encontro à parede, enquanto te tirava a roupa. e novo banho, para te acompanhar. sexo debaixo de água a correr, beijos dentro da cascata do duche. de volta à cama, sentimos como sabe bem a diferença de temperatura, os lençóis de novo frios sobre a pele quente e ainda um pouco molhada. uma sessão de cócegas, seguida de um longo beijo. voltaríamos a adormecer, eu encostado à cama, semi-sentado, tu com a cabeça apoiada no meu ventre. com a tua boca no meu sexo, eu acordaria de novo, continuando de olhos fechados, como se tivesse medo de acordar de um sonho. sexo lento e saboroso até à hora de almoço, de que nos esqueceríamos. um telefonema tardio a encomendar uma pizza, ou comida chinesa, ou bacalhau. eu abriria uma garrafa de vinho alentejano, um brinde na cama e as bocas a saber a dionísio. uma conversa bem disposta, muito riso. quando decidíssemos ler poesia erótica um ao outro, chegaria a comida encomendada. a garrafa chegaria ao fim, sobrando alguma comida. enquanto fizéssemos a digestão, um filme, talvez o delta de vénus, o nine songs ou o lust caution e ainda um dos nossos próprios filmes caseiros. a meio da tarde dou-te um presente embrulhado em papel de fantasia, uma caixa de madeira forrada a veludo, com vários compartimentos e gavetas, cheia de brinquedos sexuais. até ao anoitecer experimentamos os but-plugs, os vibradores e dildos, o yours+mine, o strap-on e o feeldoe. já com a cor do crepúsculo a entrar, filtrada pelas cortinas, faço-te uma massagem, que também me relaxa a mim. alguns exercícios de flexibilidade e de respiração e uma sequência de movimentos pélvicos antecedem um banho de espuma revigorante. quando saímos perfumados do banho deitamo-nos, tocando-nos muito ao de leve, sentindo no calor do outro a proximidade dos corações. partilhamos uma romã e bebemos chá. de seguida, já com os corpos treinados e disponíveis, atiramo-nos ao ofício ardente de amantes, sulcando a noite com o cio que despertámos. adormecemos, enfim, passadas horas de cansaço e exausta felicidade.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

"o medo dorme comigo"

às vezes as palavras escritas assustam-me. como se um desabafo pudesse alicerçar o medo, em vez de o expressar, como a um fôlego ou uma excrescência. às vezes tenho medo dessas palavras que ficam escritas, mesmo quando muda o que se sente ou se suspeita. são como pequenas âncoras-sentença ou velozes setas-suspeita essas palavras que não podemos permitir tornarem-se poderosas ou assertivas. e, ainda assim, não querendo escrever o que não quero saber, aqui venho resfolegar, como um animal ferido que parou de fugir, exausto, cheio de medo de acordar os predadores com o ruído da sua fragilidade.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

ando a escutar:

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

cem por cento de incertezas

na faculdade, tive uma cadeira de métodos estatísticos, embora o curso fosse de jornalismo. foi uma das cadeiras que fiz com mais dificuldade e a matéria que menos gostei. não admira, portanto, que não faça ideia sobre o que é mais improvável: cruzarmo-nos na rua ou vires aqui parar, ao blogue, e leres este texto e os anteriores. não sei que improbabilidade é mais favorecida pela matemática da suposição. sei que sonho com as duas coisasm e até com as duas ao mesmo tempo. imagino-te a pedires-me boleia, ao veres-me de guarda-chuva - mais uma improbabilidade -, imagino que te apresentas, escondendo no sorriso a vantagem de teres lido estes textos sem eu saber. agrada-me o cenário. gosto da ideia de não estares completamente desprevenida e indefesa face à atitude meta-romântica de um tipo oferecer-te poemas. agrada-me muito a hipótese de seres tu a ter a iniciativa de me abordares. tanto como a ideia de ser minha a iniciativa. das iniciativas gosto, acima de tudo, que resultem. não me congratulo pela beleza de um gesto, pelo carácter romântico de uma acção que se manifesta inconsequente. fico feliz, quando há beijo. quando há sorrisos. quando há entendimento. por mais trapalhona e destrambelhada que tenha sido a abordagem. por menos propícias e desromânticas que fossem as circunstãncias. é a ti que te quero, aos teus lábios, ao teu abraço, à tua pele. e não ao meu ego. e quero que me leias no braille do desejo, não na gramática dos poemas.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

o relento e as asas longe do ninho

sair para a rua tem tido algo de aventura, de cumplicidade com o improvável, de conspiração da arquitectura da esperança. fico sempre a imaginar que vais aparecer, a qualquer momento. a cidade é pequena, para tão insuflado desejo. parece-me que poderia flutuar, se me distraísse do contacto dos pés com a terra. talvez fosse mais fácil encontrar-te, olhando de cima, a minha cabeça transformada num balão, um sorriso de plástico fixo na sua comicidade, os braços reduzidos a caricaturas de braços e as pernas enroladas num cesto. sair para a rua tem tido um sabor a coisa irreal e onírica. como se aguardar o imprevisto desafiasse as leis do cosmos, como se sonhar acordado fizesse despertar os seres que vivem nos mundos interiores. sair para a rua é chamar a felicidade como a um cão demasiado autónomo para que repita os truques que mais gostaria de lhe ensinar. há também a desolação, o frio e a aresta cortante do horizonte. há o atrito entre um olhar solitário e um sexo inflamado de cio. há a memória de dias impregnados da tua ausência. e há este paradoxo de ser quase uma presença, uma névoa ou uma bolha de sabão esta tua obstinada itinerância, que te faz viver sem te cruzares comigo. sair para a rua é esperar que ao saíres para a rua me encontres. e o canídeo que nos fugiu, arfando liberdade, talvez se venha aninhar aos nossos pés, lambendo-nos a mão e puxando-nos as mangas dos casacos, porque tem tanto para nos mostrar. tanto...

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

brinde

sabes, não estou habituado a isto. sou mais de colher que de semear. é verdade que há dez anos atrás e antes disso, um desconhecido via-o como uma pessoa a quem simplesmente ainda não me apresentei. era tão fácil começar a falar com uma rapariga bonita. era só dizer olá. ficamos cínicos, desconfiados e inseguros, ao crescer. o que é um paradoxo e uma pena. bem, nem quero ser injusto. esse processo de complicação aconteceu-me a mim. talvez as outras pessoas, ao crescer, tenham começado a comportar-se de maneira mais simples, natural e directa. eu não. cada gesto parece ter uma ambiguidade irritante e pegajosa. uma simples conversa, com mais de três pessoas, é um jogo de xadrez, em que vejo uns a tentarem impressionar, impôr-se, subir socialmente ou criar alianças. e outros a manifestar ressentimento de formas subtis e calculistas. é tudo complexo e cheio de significados. mas eu não me esqueci,  ainda, da minha adolescência descomplexada, bem disposta e cheia de energia. nem mudei assim tanto. o que era o comportamento padrão, passou a ser o comportamento junto de amigos e pessoas de confiança. aprendi a desconfiar, a supor que supõem coisas de mim, a pesar o que penso que os outros pensam. mas há muitos momentos em que desligo o complicador. e o teu sorriso, a curva das tuas ancas, o teu cabelo ondulado e solto, a tua roupa colorida e o prazer que tens em andar de bicicleta, enfim, essas coisas todas que compõem o pouco que conheço de ti, ajudam-me a descomplicar o mundo. é tão simples. quero conhecer-te, dizer-te que me chamo nuno, saber o teu nome. e se um beijo, um abraço, um sorriso ou outro nutriente impossível de complicar surgir, que nos alimentemos dele, como bichos do sol e da terra. é simples. viver é saborear a vida, encontrando forma de não a pensar tanto. se tenho sede e tenho água diante de mim, não é preciso fazer um tratado sobre a sede nem investigar qual a melhor maneira de a beber ou pesar as eventuais questões morais que beber água pudesse implicar. dás-me sede. e eu sou uma fonte, assim me reconheças, como eu a ti, cada vez que te vejo.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

a noite em que o luar se envergonhou ao ver-te sorrir

antes de ir tomar banho e me vestir, penso em date with the nigth. não tenho a fúria lúdica que a canção me costuma inspirar. nem a segurança descomprometida e errática que me sugere. tenho uma febre, um espinho, uma canção surda sobre o teu corpo. gasto aqui as palavras para que ao chegar junto do teu abraço não reste mais nada a dizer. agarro-me à eloquência de te desejar, como se as nossas línguas pudessem aprender a língua agramatical dos animais com cio. não tenho o romantismo adolescente que me atirava para a derrota, como se esta fosse o mais doce e justo dos prémios. não acalento a rejeição como um incentivo, nem espero ficar nesta indecisão, confortavelmente dorido e incapaz. os caminhos são para serem percorridos. não atiro mensagens ao mar. não me sento, torturando-me com a distância impossível do horizonte. haveremos de nos cruzar. e o teu não ou o teu sim será a luz de um semáforo. há decisões se existe vontade. e há lucidez se a vontade é contrariada. estou mais despido que o habitual, a treta esvaiu-se e não tenho nenhuma cantiga de malandro para a substituir e te impressionar. a arte do engate é algo de esotérico para mim. sou todo impulso, ousadia espontânea, corpo aberto às setas. conheço bem o timbre da palavra não. tão bem como o som de um beijo que disse o que palavras não diriam. esta é a noite que se pôs bonita para nos iluminar. tão quente é o fogo das minhas pegadas, que não precisamos do luar. vem, sai do teu castelo, do teu casulo, da morada incógnita da tua ausência. tens os meus braços, para te ajudar a aconchegar o ninho do nosso encontro. vem, que a noite é fria apenas na distância da nossa separação. vem, que se me acabaram as palavras.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

oh, look at me so lame and hopeless

o concerto dos man eater foi catita, mas não estavas. procuro-te pela cidade, imaginando que fazes o mesmo. entre canções, cheguei mesmo a fantasiar a tua chegada, um sorriso cansado, de quem veio de longe e do frio, o cabelo solto e desgrenhado, a mão a tocar-me no ombro e a tua voz, perguntando, por tens andado, há tanto tempo que te procuro nesta cidade pequena onde nos vamos desencontrando. e eu que dizia, num abraço, eu também, descansa agora no calor que transita entre nós. não estavas. não sei de ti. mais vale deixar de te procurar. pôr-me a jeito da surpresa. às vezes, a caminho de casa, vendo a lua entre farrapos de nuvens, apetece-me uivar o teu nome, transformando-me no animal que te deseja. mas não sei o teu nome. sei reconhecer o teu rosto, o teu sorriso, as tuas ancas, a curva vertiginosa das tuas costas, sem as pegadas dos meus beijos, desde o pescoço, sei reconhecer o teu corpo, a tua forma de andar, mas não sei o teu nome. sonho que estamos na mesma situação, à procura um do outro, sem saber o nome ou o paradeiro. sei reconhecer os teus lábios, mas não o seu sabor, os teus olhos, virgens da minha nudez, as tuas mãos, ignorantes da minha geografia. sei reconhecer-te. não tenho feito outra coisa. entre as mulheres, és a minha insegurança, a minha incapacidade, a minha demanda. sou um tropeção da vontade, um náufrago da pose, um tolo. encontra-me, ainda que me faças tropeçar na falta de jeito que me vai paralisando. expõe a minha trenguice de uma vez, faz-me calar o talento tagarela, lê as palavras que transporto de que és destinatária sem nome que a minha caligrafia ou a minha garganta possam manejar. lê-me, encontra-me, toca-me, que ardo na errância de não te conhecer.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

antes, durante e depois de patinar

gosto de cada detalhe, que dez anos de prática foram aperfeiçoando na sua minúcia. começa em casa. ponho de lado dois pares de meias, já que não tenho meias coolmax de camada dupla. têm de ser dois pares, para reduzir a fricção e evitar feridas nos pés - que acontecem quando se anda muito tempo seguido. se está calor, visto uns calções e uma t-shirt. se está frio, umas calças e uma t-shirt. se está muito frio e vento, levo também um blusão de algodão ou uma sweat shirt - que uso à cintura, por causa da aerodinâmica... do estilo, e que dão jeito, para usar no caminho de volta, quando é noite e estou muito suado, exposto ao frio. nos últimos tempo, levo também as protecções para joelhos, cotovelos e pulsos. mas isso é coisa recente, sempre andei sem protecções, o que é bastante imbecil. depois de várias opções, fiquei por um saco que tem o logo Reader's Digest e deve ter sido uma oferta de algo que os meus pais encomendaram há muitos anos. falo do saco que tranporta os patins. este, verde e de aspecto frágil mas sem um rasgão, depois de tantos anos, é ideal porque, ao calçar os patins, é fácil de dobrar e guardar na mochila. na mochila é onde guardo também as sandálias. aqui em Braga, já comecei sessões de patinanço na rua onde moro, no primeiro banco da zona pedestre nova ao pé do theatro circo, numa e noutra ponta e a meio da ciclovia e, ultimamente, calço-me e equipo-me junto ao espaço para crianças, ao lado da Brasileira. durante muito tempo, tempo de muito calor, fui diariamente patinar para a ciclovia. ao fim-de-semana, ocasionalmente, vinha para casa de patins. patinar fora de um local sem carros foi a minha prática durante bastante tempo em Braga. mas já há algum tempo que uso os patins como gosto mais: como transporte. regresso a casa de patins, diariamente, por vezes subo com eles no elevador e só os tiro no quarto. gosto do facto de demorar alguns minutos a calçar-me e colocar as protecções. é um tempo de descontracção e de concentração. pouso a mochila e o saco com os patins. desaperto as sandálias. retiro os patins do saco verde. retiro as protecções da mochila. calço os dois pares de meias. levanto-me para que as calças não fiquem desengonçadamente em cima. a princípio, fazia-me impressão usar as joelheiras por cima das calças. agora habituei-me. depois das meias calçadas, coloco as joelheiras. sem as apertar, calço os dois patins. agora, as sandálias vão para dentro da mochila. uso o saco verde para proteger o jornal e o livro, da sola das sandálias. ponho a mochila às costas. aperto os patins. esta parte é muitíssimo importante. e, em casos como o meu, em que se teve de aprender sozinho, demora o seu tempo a aprender a perceber se os patins estão ou não bem colocados. o conforto e o ajustamento de cada patim é essencial. aperto com firmeza e precisão os cordões, sentindo a pressão no tornozelo. apoio-me sobre os patins, dobrando os joelhos, para garantir que está apertado na zona dos tornozelos mas, ainda, assim, há um mínimo de flexibilidade. aperto as correias de velcro, que reforçam a pressão nos tornozelos. aperto as tiras de plástico, que estreitam a parte de cima das botas dos patins. aqui, cometi o erro, várias vezes, de apertar demais, o que provoca dores muito chatas e impede que haja alguma flexibilidade de movimentos. deve estar apertado, mas não muito. patins apertados e confortáveis, aperto as tiras de velcro das joelheiras. coloco as cotoveleiras e aperto as respectivas tiras de velcro, e as protecções do pulso e respectivas tiras de velcro. verifico se os patins estão bem ajustados aos pés. os pés são diferentes, e eu tenho a tendência de ficar com o pé direito mais solto que o pé esquerdo, o que atrapalha a fluidez de movimentos e proporciona belíssimas oportunidades de cair. estando tudo bem, começo a patinar. quando se está a prednder, é muito fácil ficar desiludido, até ganhar medo, logo nos primeiros movimentos. iniciar o balanço é muito simples, mas é diferente da locomoção tradicional. e como não nos é natural, tem de ser aprendida a especificidade destes movimentos. a maneira mais fácil de iniciar o movimento é colocar o pé esquerdo (para quem é destro, e o direito para quem é esquerdino) atrás, perpendicular à linha que vamos percorrer. com o tempo, consegue-se iniciar mesmo sem este apoio, mesmo se o patim não está exactamente na perpendicular. mas no começo é melhor fazer assim. o pé direito (esquerdo, para os esquerdino), avança a direito, para a frente, perpendicular ao pé que está a trás. claro que especifico o pé, partindo do princípio que se está a patinar pela primeira vez. é uma forma de ter mais segurança. mas pode e deve-se iniciar os movimentos com os dois pés. o balanço, típico dos patins, é muito diferente dos movimentos de quem caminha. vai-se traçando diagonais, com um e outro pé, de ângulos mais ou menos apertados. é muito fácil cair logo, assim que se colocou os patins. por isso dizia que é natural ficar desmotivado logo na primeira experiência com patins. é fácil esquecer, porque patins nos pés não são naturais, como iniciar o movimento em segurança. muitas quedas dão-se porque se tenta ganhar impulso, tendo os patins paralelos, e avançando com um dos patins. não é que seja impossível fazê-lo, mas para quem está a começar é um movimento difícil de controlar. a regra a decorar é apoiar esse impulso, tendo o pé contrário atrás, perpendicular à direcção para onde se quer avançar. outra regra que é preciso decorar é a necessidade de flectir os joelhos. ao transferir peso para a frente, dobrando um pouco os joelhos e o corpo, pela cintura, estamos a ganhar estabilidade. parece fácil o que patinadores mais experientes fazem, balançando com as costas direitas, de forma preguiçosa. e não é muito difícil. mas o melhor, no começo, é patinar com o corpo ligeiramente dobrado para a frente, para manter o equilíbrio. o balanço consiste então em ir traçando diagonais, o pé direito avança, não para a frente, mas numa linha a direito, que abre para a direita e o esquerdo numa linha, de ângulo semelhante, que abre para a esquerda. o que se faz, em cada momento, é transferir o peso de um lado para o outro. não vale a pena apresentar muita teoria sobre a transferência de peso, porque é algo que se aprende de forma mais ou menos natural. aos poucos, movimentos que não nos são naturais, começam a sê-lo, percebemos como manter o equilíbrio, como economizar esforço, como corrigir trajectórias. as descidas são momentos de enorme prazer, para mim. e, digo eu que tentei fazer um par de descidas no começo, só devem ser feitas quando nos sentimos muito seguros. ganhando velocidade, é preciso muito menos para cair. um pequeno desequilíbrio e estatelamo-nos no chão. travar, que é fácil a direito, é bem mais difícil quando se desce com alguma velocidade. o peso que fazemos sobre o travão, se formos inexperientes, é o suficiente para nos desequilibrar-nos. a escolha das rodas é muito importante. há duas medidas que devemos perceber e perceber como a sua variação influencia a patinagem. o diâmetro das rodas e a dureza da borracha de que são feitas. os patins em que geralmente se aprendem os primeiros passos, são patins de fitness, com rodas que variam entre os 76mm e os 90 mm de diâmetro. de maneira geral, quanto mais largas forem as rodas, mais rápidos são os patins, e maior é a sensação de insegurança, porque aumenta a distância a que estamos do chão. para começar, 80mm são óptimos. mesmo 76 ou 78mm, são óptimos. os patins de velocidade chegam, muito facilmente, aos 110 mm. os patins de manobra, conhecidos por "agressive", chegam a ter apenas 56mm, porque quanto mais perto se estiver do chão, maior é o controlo. a outra medida, da dureza, determina o grau de adaptabilidade ao terreno. rodas mais duras são mais rápidas, mas mais intolerantes com piso irregular. rodas 80a são bastante versáteis. as que tenho são 82a e consigo andar em piso bastante irregular. para começar, as rodas ideais, segundo a minha experiência e opinião, são rodas de 78/80mm, 80a. o diâmetro e a dureza devem ser confirmados, antes de se comprar rodas, ou patins. as rodas 80a, sendo menos duras, gastam-se muito mais rapidamente. no entanto, na maior parte dos percursos urbanos, seria impossível usar rodas 90a ou 100a. este tipo de rodas requer pisos quase perfeitos, completamente lisos. existem, então, três tipos de patins tradicionais, "agressive" (rodas muito pequenas, entre 56mm e 60mm e geralmente duras, por volta de 86a a 90a; material resistente a choque e espaço no meio das rodas para manobras de grind - corrimões e afins), patins de fitness (rodas médias, geralmente entre 80mm e 90mm, e de dureza variável, consoante o piso que se vai percorrer) e patins de velocidade (botas baixas, ao nível do tornezelo e muito leves e rodas enormes, até aos 110mm e muito duras, chegando aos 100a). há também bastantes modelos para o que é chamado freestyle. as rodas, de tamanho médio estão muito próximas e são muito rápidas, perfeitas para os movimentos de slalon. e surgiu uma designação, urban. este tipo de patins são os meus favoritos. tratam-se de patins fitness, com material muito resistente, botas muito confortáveis e sistemas de absorção de impacto, que permitem longas distâncias com velocidade e conforto mas também algumas manobras e saltos. há também, desde há uns anos, várias alternativas para o todo o terreno; são os chamados patins offroad, geralmente com duas rodas apenas, verdadeiros pneus de alta tecnologia, os travões são também diferentes, por exemplo, num modelo da Powerslide, existe uma espia, que é esticada quando se lavanta o calcanhar. estes patins são usados em percursos de downhil, muitas vezes acompanhados de bastões de esqui. são usados por esquiadores para se treinarem quando não há neve. há também que use estes patins com um kite, fazendo em terra movimentos semelhantes aos do kite-surf. há um modelos offroad que não é de patins em linha, mas de patins quadline. são os Skorpion quadline, que têm dois modelos, que se adaptam às sapatilhas e têm amortecedores. eu gostaria de ir comprando vários modelos para usos diferentes. os que quero comprar primeiro, são os Fusion X5, da Rollerblade, rodas 80a de 80mm, leves, com sistema de compensação de impacto e material muito resistente, perfeitos para percursos com pisos diferentes, óptimos para circular na cidade e para em praças e parques, para umas manobras. os Fusion X7 seriam a compra seguinte, rodas de 90mm, 84a, bem rápidos, óptimos para percursos longos em ciclovias de piso liso. para offroad, gostaria de ter os Powerslide Blade and Walk, que permitem tirar, com dois cliques, a lâmina da bota de montanha que vem com os patins. assim, em percurso de montanha, ao chegar a um troço impatinável, basta retirar as lâminar a caminhar até onde o piso melhore. também gostaria de experimentar patins agressive, e o modelo Icons 2, da Razors é o que escolheria. há ainda vários tipos de sapatilhas com rodas que são engraçadas e podem proporcionar momentos de grande diversão. as minhas favoritas não são as heelies, mas os skateshoes. era capaz de continuar a escrever indefinidamente sobre patins, mas fico por aqui. deixo-vos com alguns vídeos:





Roger Scheinder, em patins de velocidade

Brian Shima, em manobras agressive

Eito Yasutoko, o semi-deus no inline vert

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

o envelope azul

temos talvez isto em comum: a aparente segurança dos solitários. nas minhas fantasias mais moderadas, digo-me, receoso e cheio de esperança, que foi isso que viste em mim. sugiro-me que no teu sorriso a luz e a doçura não são profissionais. espero e sonho encontrar-te assim sozinha e aparentemente segura quando eu, seguro e evidentemente sozinho, me cruzar finalmente contigo. sonho e espero que não tenhas namorad@. sei, porque o sou, que os aparentemente seguros não são nem solitários nem, evidentemente, seguros. ao sonhar tenho essa cautela que a delicadeza tece: não quero quebrar a tua frágil e aparente segurança, como um predador que detectou a presa. quero apenas dar-te um envelope azul.

a insónia de há uns dias

escreve-se quando não há mais nada para fazer. não veio o sono, não há parceiro para o sexo, não há uma conversa a percorrer com um amigo. escreve-se para disfarçar a dor ou o tédio. para entreter ou para ferir. para reconhecer ou ocultar. escreve-se para escarnecer das palavras ou ser por elas escarnecido. escreve-se para esquecer ou para recuperar. escreve-se para maquilhar ou para limpar as lágrimas. escreve-se para seduzir, escreve-se para explicar, para defender, para atacar. escreve-se para pensar ou para interromper o pensamento. sim, escreve-se como que mergulhando, mesmo se há pouco fôlego. escreve-se para emergir, como que restaurando uma jangada. escreve-se como que escutando o silêncio mais persistente. escreve-se para dissolver o ruído no corpo. escreve-se porque as mãos estão sós.

o sangue de alguém

desta vez foi mais difícil contorná-la, à poça de sangue. talvez porque era de madrugada e Braga, deserta como sempre a essa hora, estava mais fria do que nos últimos dias. talvez porque agora o sangue era negro e de aspecto mais espesso e pegajoso. à tarde, à luz do sol, era vermelho vivo. e apenas me surpreendeu, não me sobressaltou nem intrigou mais que o momento de a evitar pisar. ali, tão centralmente evidente, a uns metros do hotel turismo, num passeio onde muitos pés a evitaram pisar. não tinha, há meia-hora atrás, quando me sobressaltou sem me surpreender, a marca de pegadas, como nos filmes policiais. muitos pés de muitas pessoas a viram a tempo de a evitar. na noite onde o barulho era apenas o barulho dos meus passos, a poça de sangue entretanto escurecido pareceu-me mais evidentemente sangue, sangue de alguém, que ali não devia estar, mas circulando no corpo de onde se esvaiu.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Solidão, diferença e verdade

After all he is no more an oddity, a sexual freak, than I am; up here on the Ice each of us is singular, isolate, I as cut from those like me, from my society and its rules, as he from his. There is no world full of other Gethenians here to explain and support my existance. We are equals at last, equal, alien, alone.

Estraven (Getheniano e hermafrodita, como todos os Gethenianos), falando sobre si e sobre Ai (terráqueo, homem, heterossexual), em The Left Hand Of Darkness, de Ursula K. Le Guin, de 1969. Os dois estão sozinhos, a meio de uma viagem através de uma paisagem gelada e agreste, sem habitantes e quase sem vida. A reflexão de Estraven vem no contexto de a identidade sexual de Ai, que tem "apenas" o sexo masculino, ser considerada uma aberração para os Gethenianos  (habitantes do planeta Gethen) e da consciência, através das conversas com Ai, de que os Gethenianos são os únicos hominídeos hermafroditas conhecidos, e que, na Terra (e noutros planetas habitados por hominídeos), seriam considerados aberrações.

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

o barqueiro com corações em vez de braços

os dias começam e acabam sem o teu abraço. e existe alguma tristeza na forma como isso não interfere com a minha felicidade. somos pessoas completas, cada um com a sua vida, o seu quotidiano, as suas dificuldades e as suas alegrias. conseguimos viver separados. aliás, separação, nesta altura, é palavra excessiva. separação é o que acontece quando se corta um fruto ao meio, quando se afastam irmãos gémeos, quando dois viajantes vão por caminhos diferentes, quando se peneira ou escolhe, quando se tira ou diminui, quando se desliga. nós sempre vivemos assim. visitamo-nos, saindo das nossas rotinas para o aconchego de nos encontrarmos. e dizemos até breve, de cada vez, regressando à nossa margem, atravessando a distância, fazendo a ponte efémera que nos aproximou desfazer-se debaixo dos nossos passos. de cada vez é preciso rasgar atalhos e inventar rotas. e gostamos de como tudo existe apenas na sua concretização, sem que haja lei ou expectativa, mapa ou astrologia que nos guie ou nos perca. não temos direitos um sobre o outro. é tudo renovação e fogo, nascente e oásis. é o deserto que nos alimenta a sede, para que os corpos juntos descubram a saciedade. e bebemos sofregamente, como se houvesse amanhã.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

só tenho um remo

os dias passam devagar. muito devagar, principalmente na aceleração da saudade. como estar num comboio a velocidade elevada e olhar para a paisagem mais longínqua, quase imóvel. perto, tudo se move e fica para trás. mas é no espaço a seguir ao meu espaço que quero estar. ficamos pequenos e inofensivos, quando deixamos que o tempo passe por nós como se não nos conhecesse. somos deste mundo, desta inquietude. caminhar não é recuar para dentro. e estender um braço ou beijar a pele não é invasão de propriedade alheia. senta-te comigo no meu muro, de costas para a prisão de que estou tão cansado. poderemos procurar no horizonte os teus medos, reduzidos à sombra das asas de hipotéticas aves de rapina, contra o sol que mergulha no mar. e entremos na noite como barcos retirados de entre os juncos para o sossego líquido de um lago beijado pelo luar.

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

a minha terceira resposta à Lily Allen

http://www.last.fm/music/Lily+Allen You have, to this minute, 25,752,726 plays of your songs in Last.fm. But in the top 15 of your most listened to songs, only one, "Smile", can be listened to. Do you expect people to click on the "buy it" button before listening?

How do you expect people like me, that do not have any CD or ilegal files of your songs, to listen to your work? See other artists, smaller than you (and let me tell you 25 million in Last.fm is huge, not small), I'll find an example.

Oneida (one of the best rock bands ever, mixing vintage synthesizers with Sonic Youth like guitars): http://www.last.fm/music/Oneida They only have 502,540 plays in Last.fm. And that is very little in Last.fm (some portuguese bands there are only known in Portugal have more than that, oh, and there are only 10 million portuguese). 

Look at Oneida's top 15! Only one song is not available to be listened, all other 14 songs are. 

So, you, your record company or both think that if you don't let people listen to your songs, they will be forced to buy it. Well, I never downloaded your songs, and I don't think I will ever buy your CD's. With Oneida it's another thing. And they are incredibly smaller than you (only in cash flow, not in musicallity). I would love to hear what Oneida members have to say about your claims on file-sharing.

a minha segunda resposta à Lily Allen

I respect your position. And the need for debate is undeniable. Let me just add one thing to the debate, concerning alternative bands. You say that, unlike bands that are already very successful, the new artits are having a hard time getting paid. And file-sharing is to blame.


Ok, maybe that is true for new artists that have a record company that invests, expecting for profit. If you have a new single, and a new shinny clip and promotion, it means that the record company is spending money to promote you. And if people don't buy, there is trouble. But your music can easily be listen by a great audiance. Your sound has the potencial to be successful.


What I want to say is that, unlike mainstream artists, like you (that have a sound that can appeal to a lot of people), some artists will never have great audiances, will never have a record company investing large sums.of money. All they have - as promotion - are enthusiasts that share their songs.


I love Yoshimi P-We, OOiOO, Boredoms, Hanatarash, Yamakata EyE and also Merzbow, OLAibi, and others, all acts that are part of the noise rock scene in Japan. There was never any marketing, add, song on the radio or any other way of them making their music come to me, in Portugal. The only way was file-sharing (from one song of OOiOO, on a blog, I discovered by myslef all the other bands). Now I know what to buy, and do buy and I will go to concerts, if they ever are in a neighbouring country. But only because there was file-sharing in the first place.


Your songs play on portuguese radios, everyday. So, I understand your problem. There was investment  by your record company, you both sould get paid, record company and you - your work cost you time, money, creativity, it should be paid. But thousands of artists don't have clips and don't play on the radio. Do you think people all over the world should be prevented from hearing their songs? And do you believe that it will beneffit music, artists, industry? How can I spend money on bands I do not know? And is it ok that all the information I am suposed to relly on is the one coming from marketing? That beneffits only the mainstream acts that record comapanies bet on. And it's not fair for everyone else.

a minha resposta à Lily Allen

I am 34 years old. As a teenager I had no money to buy music. I had no allowance and absolutelly no money to buy music. But I did listen to music. I had dozens of tapes, copied tapes, of my favorite bands. Only when I started working and had my first pay check I did start to buy music. Now, I buy a lot of CD's, every month. And the vast majority of the CD's I buy are from bands I only know about because of file-sharing. I am from Portugal. When I was young there were almost no concerts of big, important bands. Now we have 12 major summer festivals, with all the great international bands and dozens of smaller and more alternative festivals. One example: Nneka's singles started playing in portuguese radios, when her second CD came out. And 3 months later she did her first gig here. Two months later, her second gig here. How is it possible? File-sharing makes sure that you can be known incredibly fast, and outside of the marketing campaings made by record companies. So, even Nneka, with absolutely no marketing ion Portugal, could quickly have two concerts here (completely sold out). If you stop file-sharing you are making sure that small, alternative or weird sounding acts, bands with no contract and no marketing do not get known. If you care about the new artists out there, you should think about this. Copyrigths are very important. And young people must ackowledge the work involved in the creation of a record. But file-sharers should not be treated as criminals. Streamming (spotify, last.fm, iTunes, grooveshark, imeem, etc) can be a way of copyrigth owners having their music available for listening and easy to buy, with just a click. Artists must get paid, and we must buy. But don't pretend like no one is beneffiting from the terabytes and terabytes of sharing. Sharing means that people, more people, in more countries, do listen. If you had the technology to stop file-sharing completely, it would be a finantial disaster. Concerts would be cancelled all over the whole world. The most alternative bands would never have their songs heard. What we need is a cooperation between sites, software companies, users and consumers, bands and record companies. We must work togheter. If record companies diabolize us consumers, the backlash will be a lot worse than the problems we have nowadays. And, I repeat: now, I do buy a lot of CD's. And before using the internet, I copied evEry single album I had. So, don't call me a thieve or a criminal. For the last 10 years I have benn paying (adn gladly) for the career of many bands. And I am willing to continue. And you should also talk about the "Audio Home Recording Act" http://en.wikipedia.org/wiki/Audio_Home_Recording_Act#AHRA_royalties and the "Sound Recordings Act" http://www.soundexchange.com/ They both collect and distribute royalties, from the selling of media recorders and media support devices (AHRA) and from the digital broadcast of music (SoundExchange). So, record companies (more than artists) are getting paid for home recording and for internet broadcast.

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

antes do depois

ainda é o teu corpo que amo, quando me deito em lençóis frios, sem te contar uma história nem adormecer nos teus braços. é ainda a tua boca que beijo, fechando olhos à realidade, quando a memória me surpreende num gesto quotidiano, para me atirar à fornalha, como lenha, para atiçar este desejo itinerante. são os teus lábios, as tuas mãos, as tuas ancas que me povoam os sonhos, que me acendem o horizonte do dia. ainda é a tua voz que ouço nos silêncios mais demorados, ainda é o teu sorriso, o teu olhar secreto e exigente, ainda são os teus gestos a impelir-me para o amor. ainda é o teu corpo que me foge, esguia centelha entre os contornos do cio,  ainda me faço solo, para as sementes dos frutos que devorarmos. ainda estou aceso, como um farol que naufragasse, teimando na chama já longe da costa, flutuando o seu desvanecer contra as marés. ainda temos tempo e espaço. e pés que deixam pegadas, se nos pusermos a caminho.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

para um mercado discográfico melhor

http://openinternet.se/projecto destinado a recolher fundos para a batalha legal entre a malta do TPB e a malta dos direitos de autor.

eu, do pouco que vi (em entrevistas na tv) dos fundadores do TPB, não gostei nada. são malcriados, ignorantes e intransigentes.

de qualquer forma, ao escolherem o TPB como alvo e símbolo, as editoras e produtoras põem aí decisões legais que nos afectarão a todos.

em Portugal já houve (penso que ainda há) ISP's a bloquear o tráfego de torrents. o que é abusivo. é um formato que tb é usado legalmente.

acho que todos devemos estar atentos ao que se irá decidir quanto à perseguição criminal a particulares que copiem música ou filmes.

com as k7's não havia grande sururu. agora, com terabytes e terabytes de cópias, a coisa ganhou uma dimensão que assusta.

assusta as editoras que se estabeleceram num modelo de negócio em que se investem milhões para ganhar biliões.

e quem investe milhões não quer aceitar que as pessoas sejam muito menos permeáveis ao marketing e à mtv do que há 20 anos.

hoje em dia, é muito difícil, para uma grande editora, fazer um investimento de milhões num disco, tendo o retorno como certo.

mas, para mim, isso é que é natural: e não sermos zombies sem gosto nem cultura que vão a correr comprar a última "aposta".

investir no disco de uma banda não é o mesmo que investir na imobiliária, na restauração ou noutro negócio.

por mais que uma editora promova, produza vídeos e faça o seu trabalho, são os consumidores que decidem ou não comprar.

para mim, a questão que os downloads ilegais levantam é "este modelo de negócio das grandes editoras continua a fazer sentido?"

a minha resposta é imediata e firme: não!

talvez fosse melhor as grande editoras terem outras abordagem do mercado discográfico.

1- deixarem de fazer contratos (tão) milionários. é o retorno de uma edição que permite recompensar o arista. e o retorno é imprevisível.

2 - deixarem de produzir vídeos milionários tão precipitadamente, como se já tivessem o dinheiro no bolso.

3 - aumentarem a percentagem do valor do CD que o artista ganha. aumentarem a percentagem do lucro dos concertos que a editora ganha.

4 - passar a ver-se a associação de uma banda à editora como uma verdadeira parceria.

4.1 - se se faz muito dinheiro em concertos, então editora e banda devem trabalhar em conjunto nisso e lucrar ambos.

4.2 - se é difícil vender CD's, procurar tornar as edições interessantes (como od DVD's, que têm entrevistas, making off e outros extras)

5 - deixar de encarar o negócio, no século XXI, como se estivéssemos em 1970. hoje as pessoas se querem ouvir ouvem (e o que querem).

6 - não sendo possível condicionar nem sequer influenciar mt as decisões dos compradores, há q fazer como noutros negócios: seduzi-los.

7 - ver nos dowloads um inimigo absoluto do lucro é ver desfocado e incompleto. os downloads dão a conhecer. e isso é bom.

8 - usar a favor das vendas a cultura (ainda fraca) dos torrents de "if you like it buy it", promovê-la de todas formas.

9 - fazer aliados nas comunidades de partilha de ficheiros. financiar algumas, promover mesas redondas, encontrar pontos de consenso.

10 - perceber que é contraproducente a tentativa de transformar o consumidor que copia num criminoso a ser encontrado através do IP e preso.

11 - os consumidores gostam de fazer boicotes. detestam que os diabolizem. e respondem, com a sua arma: a escolha de onde gastar dinheiro.

12 - Trazer para o mercado discográfico alguma da filosofia do mercado do software open source.                           

os downloads podem beneficiar a indústria, pôr mais dinheiro a circular. é uma questão de estar atento e aproveitar as oportunidades.

quando o iTunes começou, todos se riram. depois, a venda a vulso de canções tornou-se negócio milionário. e não devia ser surpresa. mas foi.

quando se ganha o hábito de fazer downloads, quer dizer que se está tb aberto a fazer downloads legais. é a facilidade de acesso o segredo.

fazer download de um torrent é fácil e rápido. comprar no iTunes é ainda msi fácil e mais rápido. e na internet muitas compras são d impulso

as editoras começam (muito timidamente) a perceber que compensa ter músicas gratuitas na last.fm e afins.

quem usa PayPal ou Google checkout tem-nos sempre logados. Comprar é dar dois cliques e pouco mais.

as editoras podem (e têm de o fazer se querem sobreviver) usar os downloads não pagos para empurrar os downloads pagos.

se continuarem a insistir no seu modelo de negócio caduco, vão ganhar uma ou outra batalha legal, mas ficarão com os consumidores zangados.

se continuarem a hostilizar quem lhes dá dinheiro, estão feitas. este é 1 ponto em q as coisas se vão definir. têm o queijo, nós a faca.         

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

a rotina do nunca

quando está frio, há nuvens cinzentas, o vento sopra desolador e a chuva é uma ameaça constante, apetece-me o aconchego do teu corpo, a tua voz num sossego de mimos, o calor dos teus abraços e as carícias de uma preguiça a dois. quando está calor, o sol parece sorrir de orgulho, as flores e as ervas fustigam o olfacto hedonisticamente excessivas e a pele celebra festa táctil e química, quero a nascente da tua boca, o banho na cascata, o vinho à nossa mesa. quando o tempo e o clima estão amenos e o dia avança, morno e suave, quero a aceleração do coração, a lentidão do cio, o sobressalto do teu olhar.

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

meu amor distante, escuta:

While you are away
My heart comes undone
Slowly unravels
In a ball of yarn
The devil collects it
With a grin
Our love
In a ball of yarn


He'll never return it


So when you come back
We'll have to make new love


He'll never return it


When you come back
We'll have to make new love


While you are away
My heart comes undone
Slowly unravels
In a ball of yarn
The devil collects it
With a grin
Our love, our love,
In a ball of yarn


He'll never return it


When you come back
We'll have to make new love


He'll never return it


When you come back
We'll have to make new love


He'll never return it


When you come back
We'll have to make new love

isto tinha dado uma crónica, bem sei VIII

de vez em quando, ouço os meus amigos arquitectos a citarem um famoso arquitecto de que não me lembro do nome (o que é irónico)

disse esse famoso arquitecto que um intelectual teria vergonha de dizer que não leu Celine ou Goethe, (cont..)

(cont...) mas não tem pudor nenhum em revelar-se ignorante em relação à arquitectura.

pois eu faço o mesmo raciocínio em relação ao desporto e ao heavy metal. segue-se a explicação.

um homem culto teria vergonha de dizer que não sabe quem foi o Picasso.

(cont...) mas não tem vergonha de nadar mal ou não nadar, não conseguir acertar com 1 raquete numa bola, não estar em forma.

além disso. há muitos melómanos que dizem ouvir tudo e mais alguma coisa. que o único critério que têm é a qualidade.

(cont...) mentem. falem-lhes de Opeth ou Amorphis e vão ver como torcem o nariz, cuspindo "isso não é música".

há uma coisa que me irrita profundamente, e que considero manifestação de uma mentalidade imbecil, onde todos nos atolamos.

facilmente fazemos comentários de desprezo quando um desportista de alta competição abre a boca e se mostra pouco eloquente, burro até.

parece ter imensa piada que alguém com um corpo tão bem trabalhado e eficaz, tenha uma mente tão pouco desenvolvida. é cómico, não é?

pois, então, porque não é cómico que um intelectual, um cientista, um homem da cultura seja fisicamente inapto, trengo, incapaz?

eu, em cada um dos casos, vejo uma pessoa desequilibrada, que desprezou uma faceta importante em favor de outra.

e não acredito q seja + importante ser inteligente do q estar em forma. eu prefiro a ignorância num corpo saudável. o contrário é aberração.            

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

isto tinha dado uma crónica, bem sei VII

a inteligência pode ser uma coisa muito destrutiva e até perfeitamente inútil. fico sempre triste ao ver alguns génios tão infelizes

e ponho sempre em causa que uma pessoa que passe a vida a sabotar a sua própria felicidade seja, de facto, inteligente.

as alturas da minha vida em que me senti mais burro, imbecil mesmo, são aquelas em que contribuí para a minha própria miséria.

já reparei que as pessoas, quando não conseguem que as coisas sejam boas, por vezes tentam encontrar charme nas más.

por isso há tanto romantismo depressivo, tanto charme literário no suicídio, tanta nobreza em quem desiste do mundo.

gostamos de heróis em rota de colisão consigo mesmo, de pessoas que se consomem em causas perdidas, de lunáticos e de sofredores.

talvez lhes adivinhemos a coragem que não temos de assumir de uma vez por todas a miséria, fazendo da infelicidade uma epopeia.

invejamos, nos nossos anti-heróis favoritos, o drama absoluto, a radicalidade do desespero, o sim ou sopas, o trágico.

e vamos sofrendo devagarinho, suavemente aguentando os sobressaltos piores, sem ter a certeza de como ser feliz nem de como sofrer.

pois eu não quero fazer do sofrimento o corolário dos meus princípios, nem acreditar na infelicidade como numa religião.

irritam-me as personagens romanticamente desesperadas, auto-destrutivas e implacáveis perante o que cheira a esperança.

vejo nelas o que sinto ser o pior de mim. não as invejo nem lhes imito os tiques de charme depressivo.

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

ceci n'est pas un sketch do gato fedorento

Jornalista - Boa tarde e bemvindos a mais uma emissão do “Programa Onde se Debatem Temas Fracturantes da Sociedade e Não Só”, um programa onde se debatem temas fracturantes da sociedade e não só.
Jornalista - Connosco, Sandro Macio, um dos mais controversos líderes dos movimentos carequistas, que defendem a supremacia das cabeças care...
Entrevistado - Permita-me uma correcção, eu não sou carequista, sou carecalista. Os carequistas defendem a extinção dos cabeludos, nós só defendemos a remoção, por meios o mais humanos possíveis, do, portanto, volume capilar, vulgo cabelo, a sua remoção, portanto, das respectivas cabeças. Compreendo que a imprensa, controlada pelo lobby cabeludo, queira dar uma má imagem do activismo carecalista. Mas, no fundo, nós só queremos uma sociedade melhor, uma sociedade sem caspa, uma sociedade sem lêndias, uma sociedade livre de piolhos e outra bicharada que anda a deixar a nação doente.
Jornalista - Compreendo, o Senhor Sandro Macio prop..
Entrevistado - Pode chamar-me Macio, o senhor está lá em cima. Não defendo esse tratamento burguês e elitista.
Jornalista - Senhor Macio..
Entrevistado - Diga.
Jornalista - Senhor Macio, então o que propõem é que todos os portugueses sejam carecas. Quer dizer, os que não são já carecas, que se rape o cabelo das suas cabeças, para passarem a ser carecas. É isto?
Entrevistado - Bem, não, quer dizer, no fundo todo o movimento carec... sim, basicamente é isso.
Jornalista - E porque motivo acredita que uma sociedade carequista é uma melhor sociedade?
Entrevistado - Carecalista, meu caro, carecalista. Um carecalista é uma pessoa que abdicou da mesquinhez da sua vaidade em prole de uma nação mais leve, mais luzidia, mais saudável. Já tivemos uma sociedade ainda mais cabeluda que a actual (e até barbuda, por deus, até barbuda), em tempos recentes. E qual foi o resultado dessa anarquia capilar, logo a seguir ao 25 de Abril?
Jornalista - Hã, não faço ideia.
Entrevistado - Eu digo-lhe, por quem é, eu digo-lhe. Então qual... hã?, onde é que eu ia. Ah sim, anarquia capilar. E qual foi então o resultado dessa anarquia capilar?
Jornalista - Sinceramente não sei.
Entrevistado - Oh, homem, não me interrompa de novo: é uma pergunta retórica.
Jornalista - Oh, desculpe, faça favor então de dizer.
Entrevistado - Ora bem... uff, qual foi, então (pára e olha para o jornalista, como quem coisa e tal), o resultado dessa anarquia capilar? O enriquecimento da mafia do shampô, a dissemninação  dos grupos subversivos para-militares do pente armado e da escova de cerdas, o empobrecimento da tradição do barbeiro português e a entrada em portugal de coisas tão contra-natura e anti-portuguesas como a carapinha e o rasta, as rastas, a rrrasta, enfim.
Jornalista - Mas na sua opinião é suficiente cortar cabelos, para que a sociedade melhore? Acredita nisso?
Entrevistado - Meu caro, nunca é suficiente o trabalho que fazemos. Por isso mesmo temos um abaixo assinado, que iremos entregar à AR, para que cada família tenha um subsídio para a compra de protectores solares para peles sensíveis, que como toda a gente sabe, não é prioridade deste governo cabeludo e irresponsável. No fundo, há muitos portugueses que querem ser carecas, como eu, mas têm medo de se assumirem. A suposta democracia cabeluda vendeu a nossa pátria aos grandes interesses que colocam no nosso território não só shampoo anti-caspa (e quem é careca não tem caspa que eu saiba, é só para ver como isto é tudo para nos lixarem e mamarem à nossa custa), não só anti-caspa, dizia, como condicionadores. E, digo-lhe eu com toda a firmeza, a minha cabeça ninguém condiciona.
Jornalista - Peles sensíveis, subsídios...
Entrevistado - Sim, meu caro, é que a pele da, digamos, moleirinha, é sensível, sabe. Precisa de ser hidratada. E depois de passar a lâmina, há que pôr um cremezinho aftershave, sem álcool nem alumínio nem coiso, é que isto de ser careca não é como ser cabeludo, que é deixar crescer, deixar crescer e depois logo se vê. E há ainda a factura que este país é obrigado a pagar, com tanto ralo entupido, tanto cotão que se forma nas madeixas de cabelo nos sofás portugueses. E que ninguém me venha dizer que mais cabelos não significa mais problemas com ralos.
Jornalista - E quanta custaria montar uma operação global de remoção de todo o cabelo português, não lhe parece um custo demasiado elevado? 
Entrevistado - E qual é o custo de insistirmos em políticas capilares, de deixarmos, impávidos e despenteados, que todo o tipo de medidas cabeludas e de pêlo na venta nos ataquem o crâneo da pátria amada? Qual o custo, para as gerações futuras, de anos de atrofio piloso, de acidentes provocados por madeixas ao vento, de cabelos na sopa, qual o custo de uma nação cabeluda e descabelada?

Jornalista - Pois... não faço a mínima ideia. Mas é com esta pergunta que nos despedimos do nosso auditório. Junte-se a nós, para a semana, e assista à entrevista a Joaquim Montado, um ex-toureiro que agora se converteu aos direitos dos animais, desde que percebeu, durante uma regressão, em sessão de hipnotismo, que na vida anterior tinha sido um grande boi.
em off:
Jornalista - Sabe, eu até tenho capachinho. Estava a tentar deixar...
Entrevistado - Olhe, nós temos uns campos de verão que são óptimos. O senhor faz um programa, junta-se aos cabeludos anónimos e vai ver que isso passa.
Jornalista - Mas acha mesmo?
Entrevistado - Claro, quem vê esta careca lustrosa e bonita nem imagina que eu já tive uma farta cabeleira loira e todas as semanas fazia uma permanente, uma mise, umas madeixas, um brushing, ai, nem imagina o que foi a minha vida, antes do nacional-carecalismo.
Jornalista - Ai sim?

Entrevistado - Sim, olhe, deixe-me mostrar os nossos panfletos...

isto tinha dado uma crónica, bem sei VI

ontem, ao assisitir ao #debate, fiquei com muito má impressão de MFL. e os eleitores do PSD devem reflectir seriamente sobre o tema Madeira.

verdade é slogan para o PSD de MFL. e o que ela fez, ontem, é tudo menos ser verdadeira. #debate

alguém, que esteja a pensar votar PSD, acredita que a MFL vê na Madeira um exemplo para a democracia asfixiada do continente? #debate

e sejam sérios e intelectualmente corajosos. perguntem-se, "eu quero uma líder que mente tão descaradamente?"

eu aceito (dentro do respeito pelos direitos humanos), qualquer tipo de pensamento político. tenho o meu. aceito os outros.

há políticos que dizem "a política interna da China é questão onde não interferimos. mas queremos a China como parceiro comercial".

no meu pensamento político, fechar os olhos a violações dos direitos humanos é abominável. mas esses políticos não mentem. são verdadeiros.

mente: um político que diga que a China tem um regime louvável e que os avisos da comunidade internacional são excessivos e alarmistas.

a MFL, ao dizer que os jornalistas, na Madeira, podem falar e falam contra o governo, ao contrário do continente, mente obscenamente.

ao dizê-lo, MFL sabe que está a dizer uma mentira. e até parece esperar que os seus eleitores o saibam e desculpem.

é como se pedisse aos seus eleitores que fechem os olhos a um pormenor, pelo bem maior de derrotar o PS e Sócrates.

eleitores do PSD, pensem bem. uma candidata que fala em Verdade como um valor moral distintivo da sua política, mente ao país desta forma.

estão dispostos a perdoar o pecadilho, em nome do bem maior que é derrotar a política "de mentira" de Sócrates? estão dispostos a isso?


isto tinha dado uma crónica, bem sei VI

detesto que o sono seja associado à preguiça.

o sono tem a ver com o cansaço.

quem se espreguiça ou boceja é porque não descansou o suficiente.

um preguiçoso, que tenha dormido bastante, provavelmente espreqguiça-se e boceja muito menos que um trabalhador sem tempo para dormir.

ácido: tenho trabalhado muito. no livro e no corpo. se não tivesse que vir para o emprego, todas as horas acordadas seriam úteis.

assim que saio do emprego, sou industrioso, trabalhador, empenhado. canso-me, trabalho, no duro, mesmo até à hora de me deitar.

"ó nuno, estás a dizer que, no emprego, te baldas, não te esforças?"

nada disso. mas, na minha mente idealista, praí 80% dos empregos são inúteis.

no sistema em que organizamos a sociedade, dependemos de postos de trabalho e do consumo. escasseando um ou outro, estamos lixados.

mas, sendo realista, praí uns 80% das profissões, empregos, coisas produzidas são lixo. não ajudam a humanidade em nada.

nunca tivemos tanta capacidade de produzir riqueza como agora. e o que fazemos com isso?

aumentamos o consumo para que as economias continuem a crescer. esgotamos recursos para que a economia cresça. somos doidos.

temos capacidade de alimentar todos os seres humanos, de vestir todos os seres humanos, de construir casas para todos os seres humanos.

irrito-me quando ouço que a solução é melhorar a economia, para que seja produzida mais riqueza, o que beneficiará todos.

é mentira, fantasia, palermice. se não conseguimos distribuir eficazmente o pouco, o muito (que é de poucos) também não.

basta ver os índices de pobreza dos EUA para verificarmos que o país mais rico do mundo não consegue distribuir a muita riqueza que produz.

e depois há esta obscena sacralização do trabalho. como se nascêssemos todos com a vocação de operários.

nós só trabalhamos porque precisamos de dinheiro.

há sociedades primitivas que são sobretudo recolectores.

há registo de termos levado escravos para o Brasil porque os índios eram "preguiçosos".

como podiam colher fruta e todo o tipo de plantas, eram caçadores-recolectores, sem grande agricultura ou necessidade dela.

há centenas de anos que vivemos esta mentira: produzir é a mais nobre das coisas. uma sociedade que produz muito é evoluída.

até a expansão do comunismo se baseou na mecânica burguesa e capitalista.

produziu-se muito, na URSS, porque havia uma revolução industrial a fazer. a classe trabalhadora, os operários tinham contexto e uso.

mas é estúpido, pouco ambicioso, castrador e debilitante queremos que os homens sejam sobretudo operários. merda para isso.

aconselho a leitura de "A Educação de Portugal" de Agostinho da Silva.

Agostinho da Silva via como a evolução desejada uma humanidade que assegurasse serem automáticos os meios de produção, libertando as pessoas

o facto de uma fábrica funcionar apenas com robots, para mim, é maravilhoso. se o que ali fosse distribuído por pessoas, era o céu.

os homens não nascem para trabalhar em fábricas, em escritórios, em armazéns. quem não luta contra isto, acredita num mundo feio.                           



publicado originalmente no twitter, em nada suaves prestações de 140 caracteres

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

corpo são é mente sã

ontem, uma pessoa amiga usou a expressão mens sana in corpore sano como resposta a algo que eu dizia sobre andar de patins. mente sã em corpo são é uma óptima síntese de uma série de coisas boas. não tenho nada contra a expressão de Juvenal. não a costumo usar muito porque a relaciono sempre com as ideias greco-romanas sobre o corpo e o desporto. eu, sinceramente, não sou greco-romano no que toca ao desporto. não nego que a minha cultura vem daí, como a de outro qualquer europeu ocidental. mas não tenho por ideal a coisa olímpica. não gosto de podiums, nem de bandeiras a subir, como em homenagem de soldado, nem dos hinos a tocar. não gosto de medalhas nem de troféus. não gosto da glória do medalhado nem dos anais a registar recordes como se fossem patamares de realizações morais - em relação aos recordes tenho o mesmo interesse que tenho por estatísticas em geral. gosto de estatísticas, porque resumem em números dados que acho interessantes. mas, de resto, não gosto dessa coisa greco-romana de homens (e eram sempre homens, não havia mulheres) a correr pela glória, para se poderem assemelhar aos heróis dos poemas épicos e aos semi-deuses que, por sua vez, eram descritos e criados à semelhança dos homens. não gosto disso nem faço disso a minha cultura. por causa da palavra glória, lembro-me do filme "Momentos de Glória", que, embora se chame no original Chariots of Fire, na versão portuguesa resume aquilo a que se resume (para alguns) o trabalho da vida de um atleta - alguns escassos momentos de glória. eu deito essa cultura para o lixo. e essa cultura tem momentos muito feios, como aconteceu com os nossos atletas olímpicos, em Pequim. porque a Naide Gomes foi trapalhona e talvez desconcentrada, a Telma não conseguiu impôr-se no dojo e um tipo disse que de manhã gosta de estar na caminha, tivemos uma nação palerma e barriguda a trazer para as olímpiadas o merdoso discurso geralmente reservado à selecção de futebol: "não se esforçam, não têm amor à camisola, não são dignos de representar portugal". merda para essa forma de ver os atletas e a cultura física. o desporto, na minha concepção e prática, não tem nada a ver com camisolas, nações e nacionalismos, glória, medalhas, hinos e outras coisas mesquinhas e inúteis da política e do ego.  e nem sequer tem a ver com os adeptos, fãs ou espectadores. perguntem a um praticante de ioga se ele sente falta de medalhas ou de momentos de glória. perguntem ao Shane Dorian, quando anda a surfar pelo mundo, se lhe faz falta uma multidão a puxar por ele. perguntem aos praticantes de Chinlone se se devia passar a competir e a premiar os melhores - no Chinlone todos praticam, ninguém compete. perguntem ao Eito Yasutoko se quando ele cria uma manobra nova o faz por amor à camisola do seu Japão. e não deixo links, porque quem realmente se interessar por desporto, vai ao google. ninguém precisa de medalhas como estímulo para subir uma montanha. ninguém precisa de fãs, quando está a praticar sexo tântrico. ninguém quer saber do podium quando faz um trilho a pé ou se dedica ao mergulho livre. o desporto, a forma física, o prazer psico-motor, o conhecimento da nossa motricidade são como tudo o que importa: não servem para chegar a uma outra coisa (medalhas, reconhecimento, etc), fazem-se porque são importantes, porque conspiram para a felicidade, porque nos atiram para o mundo com mais energia e capacidade.

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

isto tinha dado uma crónica, bem sei V

"it's all about the fans", "you guys are the reason I'm here", é coisa que se ouve muito da boca dos lutadores do UFC

os futebolistas são outro exemplo de graxa aos adeptos. compreende-se, têm camisolas para vender, patrocínios, lugar na equipa a estimar.

eu, desde criança, que acho que a parte menos importante de qualquer desporto são os adeptos.

dou um exemplo radical e próximo: estou-me nas tintas (mesmo nas tintas) para a tristeza dos portugueses, se não formos ao mundial de futb.

quando um milionário como o Cristiano Ronaldo perde um jogo importante, não penso "pagam-lhe tanto e afinal, não tem amor à camisola"

é isto que penso: "é uma merda perder, coitado". eu sei o que é perder, quando era basquetebolista perdia quase todos os jogos.

um surfista pode percorrer o mundo, surfando ondas de todos os feititos e tamanhos, sem ter um único adepto a vê-lo.

eu patino sem adeptos. e nem os quero.

vejo o desporto como a arte.

um pintor com sucesso financeiro, tem o sustento garantido. mas se pintar for mesmo importante, ele não pede licença, pinta, mesmo pobre.

um desportista, se o desporto for mesmo importante, não pede licença nem dinheiro aos adeptos. faz desporto.

os adeptos são um conceito burguês, que tem a ver com o mercado e a potencialmente milionária rentabilidade do espectáculo.

eu digo: que se lixem os adeptos. desculpem-me os adeptos. mas vão-se lixar.

e no desporto ainda é mais radical que na arte. a arte tem, quase sempre, um contexto que envolve comunicação. por isso o espectador importa

no desporto, não. um surfista não precisa que olhem para ele. (repito o exemplo, porque para mim, o surf é O Desporto.)

repito: vão-se lixar, mais os vossos pseudo-jornais que alimentam a vossa profissional espectadeirice de sofá ou estádio.

vão dar xutos numa bola, ou nadar no mar, ou subir o monte, ou pedalar, ou jogar matraquilhos. isso sim, é ser amante do desporto.

 

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

moramos entre o ruído e o silêncio

o verão não acaba enquanto não se extinguir esta sede, este incómodo de existir que faz arder a pele, este desconforto de quem caminhou descalço tempo demais, esta febre de dormir ao relento durante a tempestade. não se acaba a promessa da floração enquanto o teu nome se formar em sílabas e espuma na praia do coração. há mais calor no horizonte que esquecemos que na lareira da nossa exactidão. não precisamos de abrir espaço ao imprevisto, ao inédito, ao  inoportuno. as estrelas entram pela janela para explodir nos lençóis. o coração gosta do equilíbrio mas procura a surpresa, ao ficar quieto, maliciosamente. as estações são regras que o solo se impõe, para sobreviver, mas que esquece mal sente as pegadas que lhe escrevermos. o verão é a distância entre o meu e o teu corpo. é o desejo por desaguar, o verbo impronunciado, o sexo adiado. fogo é a bebida do meu sossego, é o nome dos meus sonhos, é a tinta dos meus poemas. e pensar na curva do teu pescoço, desenhada pelos meus lábios, no meu suor a refrescar-te o ventre, nas minhas ancas plantadas na tua cintura é incendiar o que resta de moderação e conformidade. sou o tornado a meio da primavera, a pétala que não secou, a maré que não precisou da lua, o vento dentro do peito. à nossa volta cresce o amor. basta movermo-nos para que a vida nos aponte as bocas separadas.